Câmara concede o titulo de Cidadão de Fortaleza ao médico acupunturista Evaldo Martins Leite

Foto: Andre Lima

A Câmara Municipal de Fortaleza realizou nesta quarta-feira (9), Sessão Solene para a entrega do Título de Cidadão de Fortaleza ao médico cardiologista, acupunturista, fundador e presidente da Associação Brasileira de Acupuntura (ABA), Evaldo Martins Leite. A homenagem foi possível devido a aprovação, de forma unânime pela Casa Legislativa, do projeto de Decreto Legislativo 07/2017, de autoria do vereador Dr. Porto (PRTB).

A Sessão foi presidida pelo vereador Dr. Porto, no ato representando o presidente da CMFor, vereador Salmito Filho (PDT). A mesa dos trabalhos foi composta pelas seguintes personalidades: Nilson Fernandes, diretor da Associação Brasileira de Acupuntura; Alberto Pinto, professor, filósofo e visitante das universidades de Tóquio, Harvard, Cambridge, Los Angeles e Lousanne.

Em sua saudação aos presentes, Dr. Porto disse que em conversa com o homenageado, ele havia dito que recebeu várias homenagens no mundo inteiro, mas que a principal seria essa concedida pela Câmara. “Ele chegou aqui aos 14 anos, onde se formou. Um homem de Areia Branca, pertinho do nosso Aracati. Eu disse pra ele que somos parentes, pois Aracati tinha um pequeno entrevero com Aracati e quem resolveu foi Rui Barbosa. É um prazer muito grande tê-lo aqui. De acordo com a Associação Mundial é o acupunturista mais velho em atividade no Brasil. Sei que o senhor vem muitas vezes aqui, já tendo formando 280 alunos, por sua causa a acupuntura sendo difundida no País”, frisou.

O vereador destacou que tem um projeto-piloto de colocar acupuntura como medicina alternativa nas Areninhas. “Temos certeza que vamos lograr êxito”. Disse que Evaldo viveu em Fortaleza, mas ganhou o mundo. “Nosso desejo é que seja fortalezense de direito. Ele veio me agradecer pela homenagem, mas nós é que devemos agradecer ao senhor, porque a acupuntura é muito importante. Fui presidente da Conselho Federal de Odontologia e tínhamos um projeto de acupuntura. Receba essa homenagem não por força da lei, mas pela força do amigo. Muito obrigado por ter acatado essa nossa homenagem. A você fortalezense muito obrigado por confiar nesse mandato e por entender que a mudança do mundo começa dentro de nós. Dizer da importância desse momento, fiz várias homenagens, mas hoje fiquei nervoso por ver a justeza de minha decisão. Por ser o nosso homenageado uma pessoa do mundo e por ter o coração que ele tem”.

Em seguida o vereador Dr. Porto fez a entrega do titulo de cidadão ao Dr. Evaldo Leite, que em seguida fez seus agradecimentos. “Essa é sem duvida a maior honraria que recebi na minha vida, tudo mais que recebi foi fruto do trabalho escolar, praticamente. Recebi por diversas vezes o título de  “doutor honoris causa”, mas a honra que estou recebendo agora é a maior para meu coração e para a minha mente. Minha mulher, minhas irmãs, parentes e sobrinhos aqui presentes, quero dizer que pela primeira vez depois de 80 anos sou fortalezense de papel passado. Antes era fortalezense adotado” detalhou.

Disse que chegou a Fortaleza pela primeira vez vindo em excursão de navio. “Aportamos aqui no porto então existente, no dia 3 de setembro de 1939. Dois dias depois do início da Segunda Grande Guerra, descemos na Praia de Iracema, na Ponte dos Ingleses. Quero dizer alguma coisa sobre minha intimidade com a cidade, que me recebeu de forma tão carinhosa e importante. Cheguei aqui e fui ficar uns dias na casa dos meus tios na General Sampaio e me encantei com uma série de coisas que Areia Branca não tinha, desde a ponte, até a simpatia daquele que passei a conhecer. Uma coisa muito preciosa”.

“Terminei meu curso colegial, e o diretor Odilon Braveza, de saudosa memória, me convidou para dar aulas na escola na Santos Dumont, Na época iniciei o meu curso de medicina, e Djacir Figueiredo foi meu colega de turma, foi a terceira turma de medicina do Ceará. Findo o curso, nos dispusemos para fazer o concurso para quem poderia fazer pós-graduação em Porto Alegre. O  orientador era Bernardo Usai, medico argentino premio nobel da medicina. Muitos concorreram, eram 15 vagas, as três primeiras ficaram com cearenses.

“Fim do curso, cada um tomou seu caminho, mas sempre na área do ensino. Fui professor da Santa Casa de Misericórdia, Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa. A USP funcionou lá, mas na minha época já havia saído”.

“Em Fortaleza fui morar na casa dos meus tios durante um ano, na Santos Dumont, lá praticamente terminava a cidade, descia a pé pelo areal até a praia e de lá tinha o mar a nossa disposição. Minha vida foi de uma dedicação grande aos estudos, mas aproveitando a vida de jovem. Quero lembrar que para medicina chinesa até os 30 anos é a infância, adolescência e juventude, dos 30 a 60, a fase adulta,  dos 60 a 90 maturidade, e a velhice a partir dos 90. Então ainda estou na fase da maturidade e querendo aproveitá-la bem”, disse.

“Fortaleza ainda estava sofrendo os efeitos da grande guerra. Havia aqui contingentes do Exército, Marinha e da aviação brasileira e americana, que se integraram a vida local, Finda a guerra voltam para os Estados Unidos, mas deixam uma marca forte que persistiu na nossa sociedade, Como determinados tipos de hábitos, como o gosto pela coca cola. As meninas que namoravam com americanos eram chamadas pejorativamente de cocas-colas. Fortaleza tinha 300 mil habitantes. O transporte principal eram bondes, as estradas fora da cidade eram inexistentes. A ida para Mossoró era difícil. Tínhamos que dormir na estrada. Aqui a linha de bonde era pequena para as necessidades da população. Tinha uma ‘cantigazinha’ feita pelos estudantes que dizia que a linha de bonde só ia até Jacarecanga”, recordou.

“Aqui não havia asfalto, as ruas eram de pedra e na Aldeota se colocou paralelepípedo. Um gaiato achou ruim trocar uma pedra rústica por paralelepípedo. A chegada da imagem de Nossa Senhora de Fátima foi um acontecimento extraordinário. A Praça José de Alencar ficou lotada e a população cantou com muita alegria e felicidade. Faculdade de Medicina era ao lado do Theatro José de Alemcar, onde fiz as cadeiras básicas e meus primeiros plantões. Por isso, que os dez alunos que terminaram comigo o curso foram todos bem-sucedidos. Eram 60 vagas e concorreram 200 candidatos e só passaram dez. Não era classificatório e sim eliminatório, Foi um curso bom, de altíssima qualidade. Eram todos professores cearenses que não existem mais visíveis, todos se foram. Dos colegas só eu e mais dois nesse Vale de Lágrimas” observou.

“Outra coisa de grande impacto foi a chegada da TV, em 1952 ou 53, quando Assis Chateaubriand, que dominava toda a mídia nacional. Sua rede tinha importância maior que a própria Globo de hoje. Ele resolveu trazer a TV para o Brasil, para São Paulo, a chamada TV Tupi. Ele resolveu passar em todas as capitais do Brasil para apresentar a TV, começou por Belém, Fortaleza, Recife, Salvador Rio, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. Para que o povo quisesse terem sua cidade aquela novidade tecnológica. Eu estive na primeira apresentação que ocorreu na Praça dos Voluntários, que ficou lotada que todo o mundo queria ver a novidade”, detalhou.

Segundo Evaldo, a Cidade começa a crescer e resolve dar a sociedade uma nova Sé. Para elem não deveriam ter derrubado a antiga Igreja, mas recorda que toda a  população colaborou.  Afirma que a cidade era segura. Poderia andar em todo lugar sem riscos, sem medo. Uma cidade querendo crescer e então descobriram uma praia distante, mas que poderia crescer com a construção de casas de veraneio, a Praia do Futuro. “O nome foi dado, porque naquele tempo o que se acreditava é que alí poderia ser o futuro da cidade. Ela teve esse início. O lazer era o cinema, o Cine Diogo era o expoente da juventude da classe média. As matinês dominicais eram lotadas. Resolveram fazer o primeiro cinema com ar-condicionado, do empresário Luiz Severiano Ribeiro. Ele era cearense e tinha e era dono de grande parte dos cinemas do país, inclusive do Rio de Janeiro, mas não tinha nenhum no Ceará, que era sua terra. Então ele construiu o Cine São Luiz, que foi um marco, pois também era teatro, Na inauguração passou um festival de filmes de qualidade”.

Recordou que outro tipo de diversão eram os clubes sociais, entre eles, o Iracema, Diários, Náutico, Ideal Clube, Country Clube e Maguary. “Desses clubes aquele que tem sobrevivido é o Ideal Clube. Mas eu estudando, ainda, no Colégio São João, quando nos reunimos com grupos de amigos, nas repúblicas. Criamos uma na Rua Senador Pompeu, em frente ao mar, na Avenida dos Jangadeiros, hoje Beira mar. A destruição do mar já estava em andamento, quando construíram a molhe do porto, destruiu 300 metros da cidade. Onde morei tinha três quarteirões que o mar comeu. Hoje a coisa parece que atingiu o ponto. Fazia parte do meu grupo de amigos uma pessoa de Alagoas, Elon Lages Lima, era professor do Farias Brito. Tinha 17 anos. E ele me estimulou a ser professor. O Ari de Sá Cavalcante me acolheu e eu com o Elon éramos o mais destacados. Ele chegou a ser professor da Harvard. Ao voltar pra o Brasil dinamizou o Instituto de Matemática Pura do Rio de Janeiro, um dos mais respeitados do mundo”.

Disse que Hitler foi responsável pela dificuldade econômica que o seu pai passou. Mas ele trouxe uma coisa boa para sua vida no que diz respeito a acupuntura, pois foi responsável pela vinda do grande mentor de sua aprendizagem em acupuntura para o Brasil. “Estava no terceiro ano do curso de medicina em Fortaleza e li uma revista francesa uma matéria sobre acupuntura e eu achei estranho. Li outra reportagem em revista da Suíça e aquilo me encantou. Comecei procurar algo sobre o assunto. Em Porto Alegre pensei em conhecer alguma coisa, mas lá também ninguém sabia nada. Em São Paulo fuipara Santa Casa e imaginei que como professor e amigos de origem japonesa, poderia ter acesso, mas a turma era fechada, por esses grupos orientais formando verdadeiros guetos, que não permitia a entrada de ninguém que não fosse japonês. Uma tia minha soube que um médico alemão estava fazendo acupuntura e me avisou. O nome dele era Frederico”,

“Tinha gente que achava que era charlatanismo, e Frederico foi preso porque ajudava as pessoas. Um um amigo nosso Japonês, Bachi foi preso e espancado pela Polícia carioca para não voltar as fazer aquele absurdo, que era tratar bem as pessoas. Então estou eu lá fazendo a minha acupuntura quando o Conselho Regional de Medicina de São Paulo me processou e me condenou. Mas aconteceu algo interessante, Nixon (Richard Nixon , ex-presidente americano) me salvou, vendo que a China estava isolada após a vitoria de Mao Tsé Tung ele resolveu reatar a diplomacia. Foi sugerido aos chineses que organizassem um campeonato de pingue-pongue, atletas americanos foram convidados e a houve uma grande interação. Richard Nixon foi convidado para visitar a China e levou uma grande comitiva”.

“Quando Nixon chegou a China, houve um caso sério de apendicite de um jornalista do New York Time, que estava em sua comitiva. Ele teve que fazer uma cirurgia, e no decorrer no pós-operatório e ele estava mal e então perguntaram se ele queria fazer acupuntura. Deu tão certo, que depois ele passou a publicar vários artigos favoráveis a acupuntura. As reportagens foram replicadas em vários países inclusive no O Globo do Rio de Janeiro. Então eu condenado e recorri e venci. Depois fui condenado outras duas vezes, porque como médico dava aula de acupuntura para não médicos”.

“Seu nome era Frederich Speth, alemão mas muito brasileiro, nasceu em Luxemburgo, mas era de nacionalidade alemã, pois seus pais eram alemães. Ele não gostava que o chamassem de Frederich e sim de Frederico. Se era alemão qual era a relação dele com o  Partido Nazista. A família de Frederico era o Partido Católico de Centro, que teve mais votos que Hitler. Este então fez um acordo político e conseguiu ser o primeiro-ministro e começou a perseguir os adversários. Ele então veio pra ao Brasil e no término da Guerra voltou para a França e fez um curso de acupuntura. Depois disseminou no Brasil. Minha gratidão ao Frederico é grande quem não o conhecem, o Brasil teve um herói, Johan Friedrich Speth.

“A primeira analgesia por acupuntura da América Latina foi feita por nós. Destaco profissionais em Recife e em São Paulo, no Hospital do Coração. O médico Benedito Assis, após ser operado, ele mesmo fez acupuntura e teve um excelente pós operatório, mas depois o Hospital proibiu a prática lá. Também temos uma pesquisa na área de acupuntura vegetal. Acupuntura com laser, mas pensando quem poderia ser paciente, minha mulher primeiro, depois meu filho e em terceiro um grande amigo. Não tinha laser no Brasil. Mas meu filho Eduardo estudava na PUC do Rio e descobriu que lá tinha laser e então pedi para ele intermediar a experiência, Fui lá e o aparelho de laser era enorme. O pessoal era simpático e me auxiliou colocando num suporte e daí direcionei para os pontos”.

“Temos também a acupuntura do solo, em torno das plantas, e as respostas foram muito boas. No Brasil surgiram alguns aspectos que podem ajudar a própria restauração de campos e florestas. Infelizmente não temos uma pesquisa sistematizada, mas temos muitas pessoas que fazem e que tem respostas positivas. Espero que esse tipo de trabalho seja realizado de forma mais oficial. Já fiz palestras em diversas faculdades de agronomia, mas as pessoas não levam a frente. Meu trabalho de acupuntura é dirigido para meus pacientes e que eu trabalho dedicado como deve ser. Antes de tudo o paciente, antes de tudo a prevenção. Quem faz acupuntura adoece menos, se recupera mais rápido, a mulher gestante que faz acupuntura, seu filho se desenvolve melhor. Se não cura melhora, se não cura alivia. Meu trabalho é esse, que estou passando e vejo o Nilson como meu herdeiro na acupuntura”.

Divido esse título com todos, mas principalmente com minha mulher e minha família. Venho sempre ao Ceará me reabastecer do sol, afeto, carinho, do aconchego dos familiares. Procuro fazer o que a medicina prega, fazer o bem sem olhar a quem. Frase nuito falada, mas pouco executada.  Também vejo que a saúde pode ser conquistada por tripés. O primeiro é a evolução. Você  deve aprimorar sua mente, emoção, transformando, modificando a mente. Deve pensar o bem, o bom, o belo. Devemos modificar nossas emoções negativas e fazer com que nosso egoismo seja substituído pelo altruísmo. Precisamos fortalecer a nossa vontade para fazer o bem, o bom e o belo. Outro tripé é o trabalho habitual, a luta cotidiana que tem como apoio, a esperança. A situação do Brasil vai se resolver,  o melhor está por vir e o Brasil vai ultrapassar isso, virão coisas melhores. Vamos ter esperança, ter otimismo, a convicção, a certeza, e esperança. Outro quesito é o bom humor, brincar, rir, inclusive das nossas dificuldades, dos nossos desacertos. Se analisa suas falhas com bom humor, vai errar menos. Por isso que eu digo que estou aqui em uma alegria incontida. Por isso quero mais uma vez agradecer a presença dos que estão aqui e os que não puderam ou não quiseram também. Como fortalezense de papel passado quero dizer – Viva Fortaleza, viva o Brasil!”, concluiu.

O professor Nilson Fernandes quis fazer um registro sobre a homenagem e agradecer os que que assistiram a sessão pela TV e Rádio Fortaleza;. “Aqui agradeço aos alunos, professores, familiares e agradecer ao Dr. Porto, homem da saúde, sensível e que reconheceu esse grande cidadão agora de Fortaleza, por tudo que ele fez no país. Graças a dedicação, o esforço e perseverança, no ano de 2017, vamos completar apenas no SUS, 8 milhões de acupunturas no Brasil. Digo uma coisa em primeira mão, na tradição chinesa 60 anos é reconhecido como um século e para comemorar os 60 anos da Associação Brasileira de Acupuntura foi escolhida Fortaleza para realizar nosso Congresso. Vamos levar para a acupuntura para todos através das areninhas. E dentro de alguns anos, esse será o primeiro procedimento que todos vão procurar quando tiverem algum problema de saúde”, destacou.

O professor Alberto Pinto disse que todos presenciaram algo raro: um sábio que ao longo de toda vida dedicou seu esforço e competência impar ao beneficio de todos, que tiveram o privilegio de estudar com ele ou tê-lo como seu médico ou mais ainda quando ele honrou com o privilegio de ser amigo. “Quero dizer que é muito raro ter a oportunidade de ver um homem rememorar sua vida, a história de sua cidade e expor em sua fala tanto amor ao ser humano a um lugar. Ele espalhou por todo o continente e pelo mundo os beneficios do seu saber. Tive certa vez em mãos exemplar da revista francesa que falava no preâmbulo de um artigo do do dr. Evaldo Leite que ele é considerado um dos maiores acupunturistas de nossa época. Os franceses assim afirmam e nós brasileiros também”, finalizou.

Perfil

Nascido em 21 de janeiro de 1930, na cidade de Areia Branca, no Rio Grande do Norte, Evaldo Martins Leite é filho de Euclides Leite Rebouças e Maria de Lourdes Martins Leite Rebouças. O pai, comerciante próspero na região, à época (década de 30), trabalhava com a venda de estivas e cereais, que também exportava para os mercados da Europa e dos Estados Unidos.

Com cerca de sete anos de idade, Evaldo Martins Leite foi para Mossoró estudar em um seminário. Decorridos alguns meses, ele revelou aos pais que não gostaria de ser padre, iria sim médico. Foi então para o Colégio Diocesano Santa Luzia, em Mossoró, onde estudou por cerca de quatro anos.

Sempre muito ativo, extremamente inteligente, destacava-se pelas notas que tirava em todas as matérias. Perto dos 14 anos o pai resolveu mandá-lo para residir em Fortaleza. Evaldo passou em torno de três anos estudando no antigo Colégio São João, localizado na Avenida Santos Dumont. Fez vestibular para Medicina. Logrou classificação. Agora era aluno de Medicina.

Nessa época, a Universidade Federal do Ceará ofertava apenas 60 vagas para o curso de Medicina. Das 60 só 10 pessoas passaram nas provas. Entre eles, Evaldo, que, antes mesmo de entrar na faculdade, ainda como estudante do segundo grau ava aula em vários cursinhos de Fortaleza, prática que manteve durante os tempos de aluno da faculdade.

Como o curso tinha uma estrutura para 60 estudantes e eram apenas 10, havia mais professores que propriamente alunos Então, a preparação foi muito bem feita, porque havia estrutura suficiente para todos. Mas, como (aliavam alguns livros, Evaldo transcrevia os livros dos colegas de melhores condições financeiras, já que não havia fotocópia naquela época. E, ao transcrever, aprendia mais, muito mais. Seu desempenho em sala de aula lhe rendeu logo o papel de monitor.

Pelo fato de destacar-se dentro da Faculdade de Medicina, figurando sempre entre os melhores alunos, a Philomeno Gomes, indústria têxtil, deu-lhe, como reconhecimento, uma bolsa de Doutorado, para que ele pudesse aprofundar conhecimentos. Depois de formado, passou cerca de dois anos em Fortaleza realizando atendimento junto com outros colegas, a preços módicos, nas proximidades da Igreja do Carmo. Até que resolveu fazer o Doutorado, em Porto Alegre (RS). Já então casado, vai para a capital gaúcha sozinho.

Nessa época. Evaldo Martins Leite tinha três filhos cearenses: Henrique Leite, Carlos Leite e Mônica Leite, que depois foram para Porto Alegre com a mãe. Durante quatro anos, ele esteve no Rio Grande, entre Porto Alegre e algumas cidades do interior. Tornou-se médico nessas cidades. Começou então a ensinar na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e se especializou em Cardiologia. Quando concluiu o Doutorado, foi convidado a trabalhar na Santa Casa de Misericórdia, em São Paulo, local de onde surgiu a Faculdade de Medicina. Foi onde Doutor Evaldo se tornou professor de Cardiologia.

A prática milenar chinesa surgiu a partir de alguns textos a que teve acesso ainda na cidade de Areia Branca. O trabalho de seu pai com comércio em muitos países deu ao Dr. Evaldo acesso a uma revista francesa com texto sobre Acupuntura escrito por Soulié de Morant, o maior acupunturista do século XX, que levou a Acupuntura de qualidade da China para a França. Leu sobre o tema também em uma revista suíça quando garoto, e artigos diversos sobre a milenar prática nos tempos de Fortaleza e Porto Alegre. Enfim, já havia despertado para a Acupuntura, mas não conseguiu acessá-la.

Conhecia vários chineses e japoneses: chegou a morar com uma japonesa, na tentativa de conhecer a Acupuntura através da família dela. Mas esse direito não lhe foi dado. Depois de alguns anos, uma tia, sabendo do interesse do sobrinho médico pela área, disse que existia um austríaco chamado Frederich Spaeth que estava praticando a Acupuntura no Rio de Janeiro. Primeiro presidente da ABA (Associação Brasileira de Acupuntura), Spaeth foi também presidente da Sociedade Internacional de Acupuntura (SOCIETÉ INTERNACIONALE DE ACUPUNCTURE), cargo que foi ocupado por 15 anos por Soulié de Morant.

Frederich Spaeth era de uma família católica de origem austro-húngara, precisamente de Luxemburgo; era da nobreza da cidade e era filiado ao Partido de Centro Católico, único a realmente a fazer frente a Hitler. Em função disso, a família Spaeth foi perseguida, alguns membros chegaram a ser mortos Os Spaeth foram então para a França. Depois, Friederich mudou-se para o Brasil.

No começo dos anos 1950, Spaeth teve escritório no Rio de Janeiro. Doutor Evaldo, sabendo disso, foi procurá-lo para aprender com ele a Acupuntura. Foi quando formularam o primeiro curso de Acupuntura no Brasil, em meados de 1956. Em 1958, resolveram criar a Associação Brasileira cie Acupunlura – ABA, que surgiu, inicialmente, com o nome cie Sociedade Brasileira de Medicina Oriental; em 1961, foi redenominada.

A essa altura, como professor da Faculdade de Medicina do Rio Grande do Sul e pessoa bastante conhecida e respeitada, Dr. Evaldo conquistou mais espaço para falar sobre o assunto, e a Acupuntura começou a crescer no Brasil. Quando foi desencadeado o Golpe de 64, alguns acupunturistas, injustamente, foram presos, inclusive o professor Spaeth. Motivo: aquela agulha, sem nenhum tipo de medicação na ponta, curava porque era coisa do diabo, conforme pensavam algumas pessoas.

O doutor Evaldo continuou a divulgar a Acupuntura onde podia, mas ele mesmo sentia dos seus pares certo distanciamento. Nesse jogo de pressão, Doutor Evaldo decide efetivamente sair da Santa Casa de São Paulo e abraçar inteiramente a Acupuntura, fazendo palestras por todo o país, participando de congressos, viajando para eventos fora do Brasil, principalmente Alemanha e França.

Foi ele o precursor do uso da fotografia kiilian que, digamos fotografa a aura como forma de comprovação dos canais energéticos, também utilizada para o diagnostico energético. Dr. Evaldo foi um dos primeiros no mundo a fazer a Acupuntura a laser, assim corno a Eletroacupuntura

É citado pelo próprio governo chinês por haver descoberto para o mundo a Acupuntura Vegetal. Como multiplicar a produtividade de uma planta usando apenas estímulos da Acupuntura, igualmente efetivada utilizando-se pregos, pedras e outros mais. Ele é também o precursor da Acupuntura Telúrica, aplicada rio solo.

Junto com Spaeth, doutor Evaldo começou a estimular os Conselhos das especialidades da área de Saúde a organizarem suas estruturas em função da Acupuntura. Assim, além de ser fundador da ABA, foi fundador da Associação Médica Brasileira de Acupuntura, da Sociedade Brasileira cie Fisioterapeutas e de várias outras instituições para, através delas, conseguir o reconhecimento da Acupuntura pela qualidade e validade dos resultados obtidos.

A Acupuniura praticada no Brasil pela ABA, nos dias atuais, é considerada uma das melhores do mundo. E doutor Evaldo é considerado pela sociedade europeia corno o mais importante acupunturista em atividade no Planeta.

Doutor Evaldo diz sempre “Eu sou um cearense nascido em Areia Branca”. Simplesmente porque ele tem orgulho de ter morado na cidade que tão bem o acolheu e onde deixou muitas amizades. Preocupado com o nível de Acupuntura praticado no Nordeste, resolveu trazer o que aquinhoou em quase 65 anos de vida profissional — uma Acupuntura de alto nível. Em 2002 implantou uma sede da ABA na capital cearense, que já formou mais de 30 turmas.

Periodicamente, Dr. Evaldo vem a Fortaleza ver o mar, sentir o cheiro do mar e da Cidade, olhar as belezas da terra e do céu. É a Acupuntura que faz o doutor Evaldo integrar-se a este recanto de Brasil, pelo menos duas vezes ao ano, em meio a uma agenda complicada, de muitas viagens dentro do país. Mas, faça sol ou faça chuva, ele vem aqui respirar o cheirinho da terra onde brincou desde a mocidade, e onde tem as melhores recordações da sua vida.